20050707

Não gosto nada das pessoas que andam como se quisessem esburacar o chão.
Já não gosto de sapatos barulhentos - não os que guincham: os que fazem toc toc toc - quanto mais quando os calçantes pisam com força.
Como se não bastasse o estrondo da porta do corredor comum, invasor da privacidade sonora de quem já chegou e não vem nem está a ir, mas ainda assim curto e suportável. Afinal, nem sempre temos pachorra para fechar com cuidado a porta por onde acabamos de passar. E por vezes há mesmo que fechá-la com quanta força temos, nem que seja por uns tempos, até poder voltar a abri-la. Devagarinho.
Divago...
Pior que a porta é quando se lhe acrescenta pelo corredor fora aquele toc toc toc estúpido e incisivo. Em crescendo... Em diminuendo... Até que cessa com o tilintar das chaves. Por vezes é mesmo apressado, o que o torna ainda mais irritante, a propagar-se pelo ar e pelo chão, entrando assim em casa e ouvidos alheios, numa confusão entre o ritmo do andar alheio e o ritmo cardíaco próprio, que se desembaralham quando finalmente um cessa e o outro prossegue.

20050605

Cheira a verde mas ouvem-se as gaivotas.
Litoral rural habitando as ruas caprichosas. Tudo se entrelaça: antigo e o novo, a poesia e o quotidiano, a exuberância e a discrição num padrão complexo na neutralidade do cinzento que forra os caminhos.
Tudo isto é cenário.
O que conta mesmo são os pés que doem a subir a rua inclinada. A confusão dos copos de água ao jantar depois da confusão das mesas, sob todo o barulho de fundo. A caminhada cantada até à feira do livro fechada. A maternidade e o jardim zoológico. A sessão de poesia. Os ténis em cerveja, a coreografia interminável e as saias esfregona. Os pés que ainda doem. O cão de olhos brancos que fuma. O chá, o bolor e a conversa. A sesta de madrugada. A caminhada esforçada para chegar a um final especial. Apanhar um autocarro não familiar. A manca. O caminho ladeado de sanitas, banheiras, mesas e colchões brancos. O descanso envolvido no frenesim alheio de quem tenta fazer muitas coisas. Os postais. Os corredores labirínticos do supermercado. Os estrunfs não snoopys e o bacon eleito. As proporções de açúcar e chocolate. Mais farinha; mais leite? Quantas cerejas consegues meter na boca, não engolir e ainda deitar o caroço cá para fora? Origami teimoso. Almoço na quietude de domingo. Contra-relógio para a camioneta que passou por nós.
Até à próxima.

20050529

"não fales pa mim, não fales pa mim. fala pó ar!"

20050417

e passar seis horas a conversar
e ainda assim ter o tempo contado
desde o entardecer até à noite feita
aqui, ali sobre isto ou aquilo
a chorar de tanto rir (por causa do gelado!)
com o coração nas mãos e as palavras em catadupa

20050328

Avó,
lembrei-me agora que já não a visito há muito. É natural, e no entanto surgiu-me com estranheza. Na verdade temo-nos visto as poucas vezes do costume, mas já desde há algum tempo que nos encontramos cá em casa, nos almoços sempre conturbados, pontuados pela alegria animadora do seu neto mais novo.
Apertou então uma saudade de entrar na sua rua com o coração na garganta - eu tinha sempre medo que fosse demasiado inclinada para o carro aguentar! - descer ao largo e assistir com algum assombro às manobras milimétricas do pai para conseguir estacionar. Na minha memória, está sempre vento quando saio do carro... Coisas da beira-mar? Também não era costume irmos aí em Julho ou Agosto, não que eu me lembre. E a pergunta do costume: "é esquerdo ou direito?". Ainda não sei. Às vezes tinha a janela aberta e diziamos-lhe olá de cá de fora. Ainda ouço a sua reacção, aquela "oh" tão característico! Já dentro da casa lembro-me de achar a televisão maravilhosa, grande e incrivelmente encaixada naquele móvel, mesmo à medida. E havia ainda aquela taça em miniatura de cristal, com uma colherzinha, que gostava de fazer rodar, rodar, rodar até a mãe ralhar, não fosse partir-se. Mas do que eu gostava mais era da colecção de caixinhas, aqueles baús todos, em ponto pequeno mas cheio de pormenores numa mistura de cores vivas, que eu invariavelmente abria uma por uma, mesmo sabendo de antemão que estavam tão vazias quanto podiam estar. A memória mais querida que guardo daí é a de dar bolachas ao cão da vizinha. Aquele misto de medo e vontade de conseguir. Lembro-me de subir para a cadeira de plástico para conseguir ver por cima do muro, de tentar atirar a bolacha maria suficientemente longe para o cão conseguir apanhar e do receio da minha mãe de que eu pudesse debruçar-me demais. E obviamente rapinava algumas bolachas para mim! Muitas ficavam por ali perdidas entre os malmequeres e as bananeiras daquele jardim absurdo e caótico da casa ao lado.
Ainda o que me causa mais alegria é constatar todos estes momentos felizes, apesar de todos os desentendimentos e discórdias, que mesmo nunca passando por mim não deixaram de se meter entre nós e criar uma distância, como que para lembrar que tudo está interligado numa rede imprevisível de causas de consequências.

20050127

a pergunta do dia é:
como se explica que não haja um "Ken vai À bola"?
No contexto europeu actual parece-me que faria todo o sentido.
Certamente que o objectivo de todo o brinquedo, quer dizer, objectivo do brinquedo não propriamente, já que o brinquedo não tem na verdade um objectivo (a não ser o de não se separar do seu dono, se bem se lembram do toy story). Reformulando: a função de qualquer brinquedo é a de preparar a criança para a vida adulta de um modo que pode ter variados graus de obscuridade, mas isso não interessa nada, o que interessa é que no fundo a ideia - sim, ideia! - é essa.
Assim sendo (ou ainda assim), nada mais natural que um parceiro para a Barbie que permita que as criancinhas sejam instruídas não só nas belíssimas e elaboradas artes de escolher a roupa para cada dia, passear as crias pelo parque, passear de carro, ir a um baile, etc, mas também preparadas para a realidade dos maridos de hoje! Quer dizer, de amanhã! É claro que depois de tal encadeamento lógico, a única justificação plausível, e digo única porque podem esquecer aquela que vos passa pela cabeça de que não se quer representar a realidade, mas sim o que seria ideal que ela fosse! Não é válida. Está repleta de contradições, é uma contradição, já para não falar da subjectividade dessa realidade ideal! Então, a justificação para esta falta reside na (im)própria realidade barbiana, isto é, um "Ken vai à bola" não é um parceiro para a Barbie, nem sequer é um Ken que se prese! Tudo bem!
Apesar disso, constata-se que a bola é uma constante desta nossa vida, tão concreta e definida num noticiário qualquer! Onde então é que há lugar, entre os bonecos que habitam a publicidade matinal, para tais personagens deveras indispensáveis? Depois de sérias considerações e análise detalhada da panóplia de brinquedos existente, concluí que seriam bem incluídos entre os Pinipons! Se temos uma quinta Pinipon, porque não um estádio Pinipon? Ou dois ou mais! provavelmente até tem direito a financiamento e hino à venda em cd e dvd!

20041212

preciso de um agente centrifugador mental!!!
[está
tudo
muito
confado e misturuso
]
em desordem e a estão a trocadas mim ordem.

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